segunda-feira, 9 de abril de 2018

O último corte - um conto

Ainda era cedo, o sol estava se pondo, mas Verônika sentia formigamento nas mãos e uma leve falta de ar acompanhada de uma taquicardia que aumentava conforme os minutos passavam. O convite da festa da sua melhor amiga a deixou perturbada desde o dia do seu recebimento. Compromissos sempre a deixavam desconcertada e esse ela não poderia faltar. Apesar de não gostar de estar com pessoas, de conversas aleatórias, de gente diferente, Verônika nutria sentimentos por algumas em especial. Então, essa noite ela precisava estar arrumada e disposta. Deixou cômodas abertas, som em alto volume, roupas jogadas. Não conseguia escolher nada. Ligou o chuveiro, o vapor subindo, os vidros embaçando e quando não conseguia mais ver e nem pensar em nada, abriu a gaveta e acreditou conseguir o alívio pegando a tesoura.
Uma sensação de ter tomado a decisão certa foi interrompida  com o susto que levou ao ouvir a campainha tocar. Verônika sentiu vontade de não atender, mas a curiosidade impediu, pois visitas eram escassas. Respirou fundo, ajeitou rapidamente a bagunça e seguiu calmamente até a porta, quando olhou através do "olho mágico" e foi surpreendida pela chegada dele.
Abriu a porta, cumprimentou o senhor e convidou para entrar. Ele então se sentou e Verônika ofereceu um café, torcendo para que aceitasse, pois teria tempo de pensar em como agir diante daquela conflitante situação. Ao chegar à sala, o homem estava em pé olhando alguns quadros na parede. Com a voz embargada e assustada, Verônika insistiu para que o homem sentasse. Ao se aproximar, enquanto ele colocava açúcar e mexia o café, Verônika relembrou o cheiro, o hálito, sentiu suas mãos grandes devolvendo a colher e as lembranças vieram em forma de um filme, um filme que ela pensava ter esquecido. Ainda que os anos tenham passado, tudo estava nítido na sua mente.
Correu para o banheiro, não conseguia enxergar, o chuveiro ainda estava ligado, tateou no armário e conseguiu pegar a tesoura, no mesmo momento em que seu pai a tocou no ombro perguntando se estava tudo bem. Verônika segurou firmemente a tesoura e acertou a jugular. Ainda trêmula e nervosa tomou duas decisões importantes: esse seria seu último corte e não faltaria mais a festas com amigos.
Sempre foi assim. Verônika conseguia lidar com a dor física, mas não suportava o desespero emocional.

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

EU SOU BIPOLAR



Esse foi um ano de conhecimento do Transtorno Bipolar, hoje consigo identificar os sintomas de cada fase, entendo que cada uma exige um comportamento adequado que leva a superar os sintomas ou pelo menos, amenizar.

Aceito minha realidade como portadora do Transtorno Bipolar e procuro viver um dia de cada vez, compreendendo que a negação me faz retroceder.

Ainda tenho muitas dúvidas, mas hoje não tenho mais vergonha de questionar e expor meus sintomas. 

A aposentadoria foi extremamente benéfica e me fez perceber que devemos nos cuidar de forma integral, e que há outras maneiras de viver, minha profissão não define minha vida.

Conclui meu pós graduação. realizei muitas leituras e estou iniciando a escrita do meu relato pessoal, que pretensiosamente poderá originar um livro. 

quinta-feira, 13 de julho de 2017



Ponto e vírgula.


Decidi continuar o texto.


Pelo menos por enquanto.


O Project Semicolon (Ponto e Vírgula), nasceu em 2013 nas redes sociais. O Movimento Americano quer trazer amor e esperança para quem tem tendências suicidas, depressivas ou a automutilação.
Mas por que um ponto e vírgula?
O ponto e vírgula é usado quando um autor poderia ter escolhido terminar uma frase, mas optou por não fazer, ele continua. O autor é você, e a sentença é a sua vida, diz Amy Bleuel, criadora do projeto.

segunda-feira, 10 de julho de 2017

PSICÓTICA

Tudo desorganizado.
Tumulto emocional.
Tudo é demais e parece de menos, porque ainda dá para fazer mais e mais. E  sempre mais, falta tempo, Sobram ideias e disposição.
As coisas parecem tão fáceis. Nada me abala. Posso fazer o que eu quiser, tenho ânimo, tenho planos, tenho talento. Sou capaz de receber amigos, frequentar festas, arrumar tudo, escrever sobre várias coisas, ler livros. Até terminei meu TCC, que estava empacado.
Mas porque tudo isso tem um preço tão alto?
As noites estavam agitadas, dormia pouco. De repente, acordei vendo teias e aranhas se aproximando, ficando cada vez maiores, não adianta fechar os olhos. E os dias foram passando e elas foram crescendo, com olhos enormes, os objetos do quarto também criaram outras formas, algumas coisas ficaram desfiguradas. Outras coisas se mexiam e estavam embaralhadas. Elas foram aumentando, o conteúdo ficou aterrorizante, cabelos vinham em minha direção, seguido dos olhos, e depois tudo fragmentado, pedaços de corpo, mas desordenados. Flashes de luz, pontos pretos, minha visão periférica ficou cheia de vultos.  Tive muita ansiedade, talvez até crise de ansiedade. Ficava nervosa só de pensar. Pensar também está difícil, não consigo concluir uma ideia, formar um pensamento. E quando eles se confundem? Será que estou pensando ou estou ouvindo? Não estou convencida de que estou ouvindo, acho que os pensamentos se perdem, podem se juntar com nossa voz interior e pode até ser perigoso.
Isso tudo iniciou há três semanas, está passando aos poucos.  A medicação está agindo, já estou mais calma e as alucinações estão passando. Muito ruim saber que está alucinando. Quando falei para médica, esperava que fosse agitação, perturbação, o que não deixa de ser.
Tenho medo de perder o controle da situação. Quem vai me tirar do meu mundo? Quem vai saber onde estou?
E já  sei. A tendência agora é deprimir. Tira remédio, coloca remédio. Não sei até quando vou suportar. Aquela tendência suicida sempre volta quando caio na real.




imagina...


sexta-feira, 9 de junho de 2017




APOSENTADA!

Não aceitei e depois aceitei.

Talvez agora eu consiga voar,  visualizar coisas novas, me desprender . Estava sempre pensando que poderia voltar e não me dava a liberdade de pensar no que realmente quero.

Esse é o reflexo de uma grande mudança em todas as áreas da minha vida, que vieram a partir de uma depressão severa.

Daqui algum tempo vou saber se foi bom. O que sei hoje é que no momento, essa foi a melhor decisão.

domingo, 16 de abril de 2017

Porque acordei hoje???






Luciana


Ano passado ganhei uma gata, já tinha dois cachorros.
Na minha infância tive gatos e agora, depois de tantos anos, estou relembrando a relação honesta que os felinos tem com os humanos. Eles são extremamente sinceros, demonstram o sentimento real, não fazem nada contra a vontade, se te procuram é porque estão a fim. Não são sociáveis e se identificam com uma pessoa, aquela que demonstram maior afinidade. São místicos, misteriosos, alongam todos os dias seus corpos, tem ótimos hábitos de higiene, dormem bem e se alimentam bem.
Minha gata não é carinhosa e não gosta de colo, mas me transmite uma forma diferente de amar.
Enfim, os animais são melhores que muitos humanos. São puros, desinteressados, sinceros. Adoro a Luciana Gisele. Com exceção de dormir bem, me alimentar bem e alongar diariamente, acho que sou uma felina.

sábado, 15 de abril de 2017

Encontros e Despedidas ( Maria Rita )


Mande notícias do mundo de lá
Diz quem fica
Me dê um abraço, venha me apertar
Tô chegando
Coisa que gosto é poder partir
Sem ter planos
Melhor ainda é poder voltar
Quando quero


Todos os dias é um vai e vem
A vida se repete na estação
Tem gente que chega pra ficar
Tem gente que vai pra nunca ais
Tem gente que vem e quer voltar
Tem gente que vai e quer ficar
Tem gente que veio só olhar
Tem gente a sorrir e a chorar


E assim chegar e partir
São só dois lados
Da mesma viagem
O trem que chega
É o mesmo trem de partida
A hora do encontro
É também despedida
A plataforma dessa estação
É a vida desse meu lugar
É a vida desse meu lugar
É a vida...


É a vida desse meu lugar
É a vida...







domingo, 5 de março de 2017

CUTTING










 Minhas crises tem sido mais espaçadas, porém mais intensas. Ainda não entendo muito bem o que acontece, e fico pensando na dificuldade das  pessoas que convivem comigo tem para compreender.

Estas últimas semanas, o que predominou foi intolerância, seguida de muita raiva. Sim, raiva. Não das outras pessoas, mas de mim mesma, por não saber lidar com essa explosão de sentimentos, com a imprevisibilidade, com a angústia, com a ansiedade. Já estava irritada há dias e depois de uma discussão, estourei. Precisei ficar trancada sozinha, não queria ver e nem ouvir ninguém. Precisava de tempo. queria acabar com tudo. A dor é muito forte. A dor emocional é muito maior que a física, e eu já tive dois partos. Queima por dentro, vem os pensamentos impulsivos, negativos, a dúvida, os questionamentos, a cabeça não para, tudo se mistura e você fica sem respostas. Então bate o desespero, a desesperança e a vontade de sumir do nada.

Diante disso, ouvi coisas que nunca esperava, mas me colocando no lugar , acho também que seria muito difícil se tivesse que entender algo tão subjetivo.

Penso que o paciente deve perseverar na terapia, mas os familiares também deveriam fazer, eles precisam entender melhor o que se passa para nos ajudar, assim como também devem ter muitas coisas para tratar, como todo ser humano.

Ainda fico pensando o que pode desencadear as crises, dessa vez sei que foi a diminuição do lítio, feito por conta própria, seguida de assunto tratado na terapia, muito difícil para mim.

Precisei recorrer a minha psiquiatra, pois entendi que diante desta situação, precisava de algum ajuste na medicação para me ajudar a superar. Antes eu era mais resistente, achava que poderia resolver sozinha, esperava a próxima consulta, e aí ficava muito pior.

Ainda preciso de tempo, mas acho que estou no caminho da compreensão do que acontece comigo.

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Vazio

Todos passam por mim, eu não vejo e não sinto. Tenho um vazio existencial desde sempre, as vezes piora, quando chego a conclusão de que não tenho nada a fazer.
Tenho momentos bons, me sinto bem, mas não consigo agradecer pela minha vida. Eu existo e não vivo.
Achei que tivesse superado o pior da minha infância, mas as coisas voltam mais intensas se não conseguirmos encarar elas.
Estou triste. Briguei com pessoas que amo, não estou conseguindo me esforçar para agradar aqueles que amo. Sei que não devo viver para agradar, mas já que não gosto da minha vida, pelo menos devo fazer bem para quem eu amo.
E nesses momentos tudo é difícil, é um fardo, eu sou um fardo. Eu não consigo me carregar. Eu não gosto de conviver. Eu gosto de coisas simples, mas que não causem grandes modificações na minha rotina.
Consigo identificar que estou em crise, não peço compreensão, mas paciência. Não é fácil para quem convive, mas também não é fácil para mim.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

ALUCINAÇÃO

(Belchior)

" A minha alucinação é suportar o dia a dia,

e o meu delírio é viver experiências reais"

O verdadeiro fardo de alguém que não consegue viver de maneira estável, que gostaria de viver a vida com um propósito, viver a própria vida, e não a vida dos outros.



Se tem energia, está maníaca; se está sem energia, está deprimida


Estive hipomaníaca durante aproximadamente um mês. não posso negar, foi bom. Uma energia interminável, acordando cedo, o que é completamente estranho para mim, fazendo muitas coisas, várias ao mesmo tempo.
Estava há uma semana dormindo quatro ou cinco horas por noite. Hoje sei que isso é um alerta. Percebi que não estava bem em um sábado de manhã que tinha prova do meu curso de Pós. Estudei até três horas da madrugada, acordei às seis e enquanto fazia o café, limpei os vidros da cozinha.
Esse foi o primeiro sinal. e fui aproveitando, pensei "se estou sem energia, estou deprimida; se estou com energia, estou maníaca". Resolvi ver o resultado. A terapeuta percebeu e me alertou, achei que fosse cedo, que talvez eu voltasse a dormir. Mas minha cabeça não  parava, na mesma velocidade do meu corpo. Não sei como arrumei tanta coisa para fazer. Fiz compras de coisas repetidas, entrei em discussões desnecessárias por motivos fúteis (disso não me arrependo muito, aproveitei o momento e fiz o que estava há tempos com vontade); enfim, teve o lado muito bom, mas as consequências não foram boas. Fiquei agressiva na direção, impulsiva ; e falo demais, o que não combina nada comigo, não me sinto bem. Na outra sessão , a psicóloga sugeriu que eu falasse com a psiquiatra, porque achou que eu piorei, estava mais exaltada. Então escrevi uma mensagem e ela viu que eu estava eufórica e retirou um antidepressivo. Aos poucos, fui acalmando, os pensamentos ainda muito rápidos, mas o corpo começou a cansar. Ainda não durmo o suficiente, e isso é determinante no meu comportamento. Hoje tive consulta e algumas doses foram alteradas, o lítio foi diminuído por estar alto e a quetiapina foi introduzida para melhorar o sono. Não entendo porque não consigo falar tudo, minha dificuldade de confiar nas pessoas. Ela é minha médica há três anos, preciso falar tudo para meu próprio bem. Mas dei um grande passo, escrevi uma mensagem daquilo que ficou engasgado.
Só quero que passe essas festas de final de ano, elas me perturbam, me deixam nervosa. Não é que eu não goste das datas, eu não gosto é do preparo, das expectativas, da ideia de que tudo vai mudar, de ter que ter planos. Essa pergunta hoje me deixou desequilibrada. Eu tenho um plano e só pensei, não consegui verbalizar. No momento ele não é bom. Minha mente está ocupada com muitas coisas do passado e não consigo visualizar um futuro.






sexta-feira, 28 de outubro de 2016



AH TÁ!!
Cada conselho. Melhor ficar calado.
Um abraço ajuda mais.



PARA AS PESSOAS QUE NÃO AGREGAM NADA. FÚTEIS.
Gatos transmitem uma energia positiva e são verdadeiros, se te procuram, é porque realmente fazem questão da tua companhia. São independentes e nada sociáveis.
Sou verdadeira, não sei ser alguém que não sou. não gosto muito de pessoas. Por isso adoro gatos.

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

100%

Perícias e perícias. Não estou mais conseguindo suportar.
Sempre as mesmas perguntas, "há quanto tempo está afastada?", "se sente melhor?", "está depressiva ou eufórica?". Sei que eles devem desempenhar esse papel, mas o fato que é muito cansativo para mim.
Tem dias que me sinto melhor, claro. Acho muito taxativo dizer "hoje estou eufórica", "hoje estou depressiva", não é assim. sei que sou leiga, não sou médica, sei explicar isso, acredito que falta empatia e sensibilidade nesses peritos.
O que acontece é que estou afastada desde agosto do ano passado. Fiquei muito mal, acho que cheguei ao extremo, fui devidamente medicada e amparada e posso afirmar que o processo foi lento e gradual, que eu estava desesperançosa, sem energia e sem acreditar que aquela situação poderia ter volta.
Mas de alguns meses para cá, muito lentamente, estou sentindo melhora, que vem aos poucos, uma vontade de sair, de ler, de arrumar a casa, conversar com a família; voltei a estudar, as coisas estão mais coloridas, antes só enxergava o cinza. Parece pouco e rotineiro, mas é muito importante para mim sentir isso de novo.
Então na última visita aos meus médicos peritos, fui informada que não haverá próxima perícia, pois serei aposentada. De imediato, levei um choque, fui embora e resolvi voltar. Não posso acreditar que uma vida profissional seja vista dessa maneira, "se não está servindo, saia" e de forma brusca, sem dar tempo de assimilar. Tive um chilique, vim para casa e na próxima sei que não vai ter volta.
Mas para minha surpresa, ouvi do psiquiatra do município, que se eu quisesse reverter essa situação, eu deveria levar um laudo da minha médica onde deveria constar a afirmação de que estou melhor, apta 100% para o trabalho. Inacreditável!!! Dessa vez não fui embora. Perguntei quem ali estava 100% para alguma coisa, que isso é impossível. Então disseram que realmente eu estou descontrolada e não posso retornar.
Tudo bem. Tenho uma médica compreensiva e competente, que  elaborou um laudo com veracidade e que agora vou ter o prazer de entregar, de forma íntegra e correta, sem passar por cima dos meus valores e de tudo que já conquistei, respeitando a progressão da minha doença e sabendo valorizar a tão esperada melhora e sobretudo sem arriscar o que consegui superar até aqui.
Vou me aposentar? Vou. Não sei o que vou fazer amanhã, depois, ano que vem. O fato é que agora vou fazer o que não conseguia há algum tempo atrás, o que não acreditava. Hoje sei que quero viver, porque reencontrei aquilo que me dá vontade de viver.
Muitas coisas mudaram, até mesmo a forma de pensar sobre alguns assuntos, meu posicionamento, sinto liberdade para escolher o que quero, estou aprendendo a dizer não, e arrisco dizer que até a minha profissão poderá mudar.
Só peço uma coisa: eu nunca quero ser 100%, é muita hipocrisia e falta de bom senso. Nem mesmo nos meus piores momentos eu almejei isso. Somos humanos, temos falhas, pensamos, podemos estar no ambiente de trabalho e lembrar que deixamos o filho doente em casa. Falta humildade , saber renunciar, aceitar que quando não dá mais, temos que mudar. Enfim, 100% . Eu ainda não acredito que ouvi isso.

domingo, 31 de julho de 2016

Feliz é aquele que não é infeliz

" (...) E por essa razão, é muito comum na história do pensamento que se fale em busca da felicidade. Havendo busca, é porque ela ainda não está; permanecendo a busca, é porque ela continua não      estando; consagrando-se a busca, é porque, talvez, ela não apareça nunca."


Clóvis de Barros Filho, "Felicidade ou Morte".


Após outra crise depressiva, vou tentar organizar as ideias e escrever de novo. Estou me sentindo bem, porque iniciei a leitura de livros, gostaria de começar um, terminar; mas inicio alguns, às vezes não termino nenhum e às vezes termino.
Esse livro que mencionei é dos autores Clóvis de Barros Filho e Leandro Karnal, ilustres escritores , o primeiro voltado a uma visão filosófica da vida como um todo e o segundo com uma base histórica, remetendo ao pensamento filosófico.
Tenho um pouco de dificuldade para ler e entender, resquícios dessas repetitivas depressões. Mas estou satisfeita pela tentativa e apreciando muito esse livro que leva a refletir sobre a felicidade.
Acho que não existe conceito de felicidade, nem procurei no dicionário. Qual o significado da felicidade? O que você faz com a felicidade? Como manter a felicidade? Como alcançar a felicidade? Será que é tão necessário pensar sempre em ser feliz?
Não sei. Só sei que nunca fui infeliz. E então identifico outra palavra que não acho o conceito.
Para mim, isso é muito individual.
Porque não sou e nunca fui infeliz? Para mim, infelicidade é não ter o básico para viver dignamente. não falo em sobreviver, falo em viver. Penso que não passamos por essa vida para sobrevivermos. Queremos viver.

Dicionário informal. Significado de viver.
Ter vida ou existência, existir. Ter (um ser vivo) um dado habitat. Portar-se, proceder. Durar, conservar-se. (verbo intransitivo)
Alimentar-se de, nutrir-se de. residir, habitar. Ter vida em comum. Experimentar (sentimento, emoção). (verbo transitivo).


Tenho vida, tenho onde morar, o que comer, o que vestir e com quem dividir minhas experiências.
Eu vivo de forma digna, não sou infeliz. No meu conceito, não sou infeliz.
Todos passam por situações difíceis, conflituosas, tristes, desesperadoras, sofridas, onde achamos que não haverá saída. Isso gera muito sofrimento, consequentemente fico triste, mas não infeliz. E se estou triste, não significa que não sou feliz. Sou feliz conforme a minha visão da felicidade. Sou feliz nos momentos simples, sou feliz quando tenho a liberdade de fazer o que quero e o que preciso, sou feliz com minha família, com meus animais, com meus amigos, mas fico triste. E o que me provoca tristeza só eu posso sentir, porque a tristeza para mim, pode ser completamente diferente para outra pessoa.


Então, fico feliz por ter a convicção de nunca ter sido infeliz, tomara que eu nunca seja infeliz, e saber que então sou feliz só me traz mais felicidade.
Então cheguei ao meu conceito. Feliz é aquele que não é infeliz.

quarta-feira, 13 de julho de 2016

"Quando vier a primavera"

Quando vier a primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que
na primavera passada.
A realidade não precisa de mim.


Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem
importância nenhuma.
Se soubesse que amanhã morria
E a primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois
de amanhã.
S e esse é o seu tempo, quando havia ela
de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que
eu não gostasse. Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.


Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem podem dançar e cantar à roda dela.
Não tenho preferências para quando já não pude
ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.


(Poemas Inconjuntos, heterônimo de Fernando Pessoa)




Já plantei uma árvore, já tive filhas, ainda não escrevi um livro, já cuidei da minha mãe até o fim, preservo uma união de 22 anos, sendo totalmente leal e sincera, cuido de vários animais. A realidade não precisa de mim. Eu não preciso de mim. As coisas são como são. Pode chover, nascer, morrer, viver, adoecer, ficar triste, ficar feliz, tudo está no seu tempo. Tudo.
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo. Tudo é real, mas não há como ter a certeza de tudo.
Mas se eu morrer agora, estarei contente. As coisas foram como teriam que ser. Não há como mudar a finitude de tudo. É assim e é assim.
E as preferências já não existem mais, ou nunca foram preferências nem escolhas. Foram o que estava ali.
O que for, quando for, é que será o que é.
E eu quero ter a consciência e a plenitude de saber quando for. De expor minhas vontades e que as pessoas não tenham preferências, mas que eu tenha escolhas e cabe a mim decidir. Porque cada um sente da sua maneira como ir e vir, quando ir e vir. Por favor, ninguém faça isso por mim.

quarta-feira, 6 de julho de 2016

Tive um luto mal elaborado. Cheguei a essa conclusão há alguns meses. E isso com certeza colaborou para a intensificação dos meus sintomas da bipolaridade.
Minha mãe teve o diagnóstico da doença em novembro de 2010. Ela tinha câncer de endométrio. Fez cirurgia, quimioterapia, radioterapia, braquiterapia; passou por várias intervenções, várias internações, entre uma sessão e outra. Ela ficava muito debilitada. Em nenhum momento, até então, eu pensava que ela iria morrer. Acreditei fielmente na sua cura e no seu restabelecimento, podendo voltar a viver com algumas limitações, pois a doença a deixou muito fragilizada, mas voltando a viver.
Em dezembro de 2011, foi concluído esse tratamento. Mas ela sentiu fortes dores abdominais, teve que fazer novos exames e então foram constatados três tumores no fígado, sem condições de operação. Voltamos ao hospital, ela foi internada para iniciar um novo ciclo de quimioterapia. Nesse momento, comecei a duvidar. Falei para o médico que ela não aguentaria. Ele disse para persistir e acreditar. Não acompanhei a primeira sessão, ela estava internada, passei todos os dias com ela, mas esse dia eu sabia que as coisas não iriam dar certo.
Ela passou quatro meses internada antes da sua morte, ocorrida em julho de 2012. Fizemos todo o possível para que ela ficasse confortável e sem dor. Ela teve AVC, convulsão, ficou demente nos últimos dois meses, foi tudo muito sofrido. No último mês eu entendi que minha mãe ia morrer. Eu percebi pelas atitudes das enfermeiras, pelo estado dela que só piorava, pela falta de opções, eu não quis que deslocassem ela para outro hospital para fazerem um exame e ver se tinha câncer no cérebro. Eu entendi que isso não faria diferença, o tratamento seria o mesmo e eu não queria que minha mãe cumprisse um protocolo, um item a mais na sua lista de enfermidades. Não fazia diferença. Acho que a partir desse dia eu comecei a enterrar a minha mãe, eu vi que não tinha mais mãe, ela não falava, só ficava medicada com morfina, mal abria os olhos, ela já não vivia.
Uma semana antes de seu falecimento, a médica veio falar comigo. A mãe ainda tinha muita dor, apesar da morfina. Então a médica sugeriu que o aparelho ficasse ligado todo o tempo, com a dose máxima de morfina e me alertou que a mãe não iria mais acordar, podendo permanecer assim até dez dias. Tomei a decisão sozinha, não falei para ninguém, só expliquei depois. Nesse dia perdi minha mãe. Fiquei órfã. Não a vi mais. Só toquei e falei poucas palavras. O essencial falei enquanto ela ainda estava consciente. Ela ficou sete dias assim. Já estava tudo providenciado, velório, enterro, capela. Esse foi meu primeiro grande erro. Não deveria ter ido junto providenciar essas questões, minha mãe ainda respirava e compramos seu caixão.
Após toda a cerimônia, cheguei em casa, tomei um banho e fui lavar roupa, arrumar coisas, estava tudo jogado. Lavei inclusive a coberta que ela usava no hospital, não queria mais sentir aquele cheiro.
No domingo, fizemos um almoço com meu pai, minha sobrinha, eu me sentia com muita energia e não parava. Na segunda viajei com meu pai para o interior. Na terça providenciei minha licença de sete dias devido a perda da mãe. No resto da semana limpei guarda roupas, armários, levei e busquei as meninas no colégio, fui ao mercado, não parei. No sábado, dia quatro de agosto, foi a missa de sétimo dia, não chorei, não voltei para casa, fui no shopping. Fiz muitas compras, fiquei muito tempo andando, voltei detardinha para casa. No domingo planejei aulas e na segunda retornei para sala de aula.
Meu Deus!!!! Tudo errado. As pessoas querem ajudar, mas ajudariam muito mais com solidariedade. Ninguém é obrigado a saber como lidar com enlutados, mas eu aprendi o que não fazer e dizer para pessoas de luto.
Primeiro, temos que nos permitir viver o luto, seja chorando, dormindo, conversando, saindo, mas não negando.
"Sua mãe estava muito doente, acabou o sofrimento"; "É a lei da vida, os pais morrem antes",  "Ela está bem", "Você tem que seguir sua vida", "Temos coisas para fazer", "Tu tens uma família linda e filhas que precisam de ti". Não costumo escrever assim, mas "Vão à merda!!!!"
Era minha mãe, ninguém quer que a mãe morra, por mais que esteja sofrendo, porque, sim, somos egoístas. É a lei da vida??? quem disse? Você é Deus para dizer quem vai primeiro?? Que lei é essa?
Ela está bem. Essa é a pior de ouvir. Como assim?? Tu já foi e voltou?? Não esquecendo que o enlutado, na maioria das vezes, está descrente e sem falar que nesses momentos não se coloca a religião como justificativa. Seguir a vida? agora? Eu quero conversar, se eu falar sobre a morte e a doença, basta ao amigo ouvir, deixar colocar para fora, e quem sabe, um abraço. Só. Sem tentar "consolar", com crenças pessoais e palavras decoradas. Sim, tenho uma família maravilhosa, mas essa hora é minha, sou eu quem preciso de cuidados, sou eu que preciso chorar no momento e na hora que eu precisar, e não ficar escondendo da minha família.
Enfim, consegui identificar várias situações prejudiciais, que eu não me permiti expressar no momento certo, mas que hoje consigo externalizar e me fez muito bem.
Minha mãe sabe e sempre soube da imensidão do meu amor por ela, do quanto lutei com ela, do quanto a admiro e que tudo isso não passou de uma negação, por ter perdido o amor mais nobre da minha vida, a pessoa que me conduziu ao bom caminho, firme na educação, emotiva, mas sem muita demonstração de carinho, esse era visto na sua bondade e no seu coração. Movida pela fé, cumpriu com êxito sua jornada. Sou humilde o suficiente para afirmar que não sei onde ela está, ao mesmo tempo, sei que ela está ao meu lado, pois sinto sua presença e seu olhar.
Mães deveriam ser eternas. Pais também. Todas as pessoas que amamos deveriam ser. Não queremos perder ninguém. Não adianta dizer que é a maior certeza da vida. Não estamos preparados, cada pessoa reage de uma forma, mesmo se a morte for prevista. Eu entendo a morte da minha mãe, mas não aceito. Seria mais fácil, mas meu coração enrijece cada vez que penso: "tudo bem, era a hora dela".
Dia 28 de julho completa quatro anos de sua partida. Agora que estou entendendo um pouco melhor o que aconteceu. A dor amenizou. A saudade aumenta a cada dia. "O tempo é o melhor remédio". Acho que não, o tempo não apaga nada, ele suaviza. E só.